Sim, faz muito tempo que não escrevo neste site e penso que chegou o momento de mudar isso. Não tinha planejado um retorno em maio (motivo: meu aniversário), mas apenas estalou na mente que esse seria um bom momento. Afinal, eu passei os últimos meses colando alguns pedaços meus enquanto pensava no famoso “momento certo” para botar a mão na massa.

Só que há aquela sensação latente de nunca estar pronta ou de nunca haver o momento certo ou de não me sentir conectada ou de achar que estava um pouco cabisbaixa demais pra isso. Daí, me lembro que nem tudo é unicórnio, pois, às vezes, a gente precisa mostrar o outro lado de nós mesmos de vez em quando também.

Dessa forma, e como faço no Random Girl, todo ano eu escolho uma frase que simbolizará meu ano e assim seguirei nas rédeas dela. Meu ano começou tardiamente. Basicamente, em março, pois em janeiro e em fevereiro iniciei o que chamei de projeto de regeneração. Vocês entenderão conforme lerem esse texto.

 

 

Sun still rises even with the pain

 

O trecho destacado é da música Another Story, do The Head and The Heart. Eu a escolhi para simbolizar meu retorno ao Bela e as Feras por vários motivos, mas, essencialmente, porque foi uma das que mais ouvi ao longo de 2016. Quando ela toca, sempre rola a pausa de reflexão – mas conforme afundei no “dark side”, ouvi-la deixou de trazer algum tipo de efeito.

Não há como contestar o fato de que o Sol ainda nasce mesmo com a dor. Emendando outro trecho do mesmo refrão, que o Sol ainda nasce mesmo através da chuva. A vida segue firme e forte enquanto estamos felizes ou tristes. Ou, no meu caso, paralisada. No 2º semestre de 2016, eu simplesmente parei. Os dias se seguiram densos e sufocantes. Achei que não conseguiria sair desse efeito congelante que me desligou da minha realidade e de mim mesma.

Os dias poderiam ter conquistado o tom cinza que fosse, mas aquele tom cinza tinha até sua própria maneira de mudar sua tonalização e se esparsar por entre as nuvens. Um processo que, ao som dessa música, compreendi como uma transição e que só é possível transitar quando abraçamos o processo. Algo que não diria que impedi que ocorresse ao longo do segundo semestre de 2016. A trava surgiu, se manteve firme, criou ervas daninhas. Mas não sozinha. Entremeada a essa trava estava vários sentimentos ruins: a famigerada tristeza, a angústia, o desespero silenciado… Alguns exemplos que foram capazes de me deixar nocauteada pelo resto do ano. As músicas que costumava ouvir foram silenciadas pelo ruminar do fracasso. Um fracasso que se justificou em mais um ano sem conquistar “nada”.

E foi muito fácil se deixar levar porque eu tinha altíssimas expectativas para 2016. Todas naufragadas, especialmente pelo fato de seguir desempregada.

A sensação latente do fracasso me empurrou ferozmente para dentro de mim. Tranquei e não consegui destrancar. Por alguns meses, acreditei que estava deprimida porque comecei a me distanciar do que me mantinha em movimento. Isso foi piorando ao ponto de eu protelar tarefas e abandonar projetos. Não queria que o fracasso contaminasse o que ainda me servia de âncora. Como esse site, independente de tê-lo interrompido em suas atualizações.

Só que eu faço isso normalmente porque, não sei, há algo em mim que precisa se distanciar para encontrar o caminho de volta. Ato que me fará ver que tudo que fiz, até certo ponto, valeu a pena. Mas nem isso consegui fazer porque estar perto de quem eu gosto e de fazer o que gosto não supriam o fracasso pesado do momento. Eu estava presa demais a ideia de que um emprego resolveria todos os meus problemas e foquei só nisso. Ver o ano acabar sem nada não me fez ver motivo para manter o resto.

Para uma mente desesperada, não havia motivo para continuar com nadinha de nada. E se eu continuasse, eu me machucaria no processo por não estar com a mente e o coração no lugar.

Até que houve um instante que desisti de procurar soluções e eu só queria dormir para não pensar. Isso impediu que a dor entrasse em mim e impregnasse nos meus ossos. Era uma forte negação que arrastei por outubro, novembro e dezembro de 2016.

Enquanto isso, o Sol nascia lá fora, mas eu não deixava a minha dor me possuir. Eu estava com medo de me deixar sentir tudo de uma vez. Não queria me deixar cair. Primeiro porque seria vergonhoso. Segundo porque soaria como uma reafirmação de que nada realmente teria jeito. Os dias seguiram e eu sabia que precisava cair.

Enquanto outras vidas ganhavam novos capítulos, empaquei em um só até me decidir se haveria alguma chance de acompanhar o core dessa música: criar uma outra história.

O quanto isso me afetou é mensurado – em parte – pelos projetos que abandonei. Por não me sentir bem comigo mesma para mantê-los, resolvi parar a levá-los nas coxas. Esse site pertence ao grupo.

Quando fiz os primeiros rascunhos do Bela e as Feras, o intuito partiu da criação de um espaço de conscientização sobre transtornos alimentares, depressão e suicídio. Essas metas ainda prevalecem porque é aonde mora minha preocupação como ser humano. É a dita paixão que move meu ativismo e que se esvaiu de mim com o passar do segundo semestre de 2016. Além de cuidar desses objetivos, criei esse espaço para também falar de organizações que me inspiram.

O mais importante de tudo isso foi criar um espaço do qual eu pudesse desabafar e, por que não?, ser uma conselheira no meio da escuridão. É minha meta também tentar contribuir para um bom dia, mesmo que seja temporariamente, para qualquer pessoa.

Por não gostar de escrever quando me sinto vazia, não via razão para produzir textos pra cá. A emoção é o que mais me norteia, é o que traz o meu melhor, e eu não estava conseguindo sentir muita coisa tangível para seguir esse projeto. Tudo que passei a escrever no citado período passou a soar meio hipócrita. Não tinha firmeza. Então, vi que não adiantava querer fazer milagre quando eu mesma não estava no eixo correto. Precisei parar e esse processo aconteceu automaticamente. A diferença é que segurei o freio de mão por meses até explodir e quando explodi não foi algo bonito de se ver.

Assim como meu outro site (Random Girl), as coisas pararam por aqui porque também “perdi o toque”. Ao não compreender minha dor, parei de compreender meus arredores e a mim mesma. Deixei-me levar por esse fracasso que roubou muito de mim. De quebra, problemas em casa começaram a surgir aos baldes, e do nada, me relembrando um dos piores anos que tive no arco dos 20 e poucos anos. Too much!

A certeza que eu fui tendo com o passar dos dias é que eu precisava quebrar. Tal ideia ganhou mais força em um encontro do I Am That Girl que aconteceu em novembro. Uma amiga muito querida contou sua história ao longo dos meses anteriores desse mesmo ano e concluiu dizendo que não há problema em ir ao fundo do poço. Um lugar que todo mundo teme, talvez, por achar que é fraqueza ou por achar que não tem retorno uma vez que se estiver lá. Isso ficou na minha cabeça pelos meses seguintes…

Embora se passasse na minha cabeça que estava sendo fraca e que precisava “tomar vergonha na cara” para dar a volta por cima (detesto essas duas sentenças, mas seguimos), o que sempre me preocupou nessa de fundo do poço era o medo de não retornar. De ficar lá porque é quentinho e ninguém me atingiria.

Eu cobicei esse fundo do poço com mais afinco depois desse encontro. A voz dessa amiga rodopiava na minha cabeça. Bati as pontas dos meus sapatos na quina, medindo a altura que seria a queda. Nesse ínterim de tempo, fui me fechando completamente. Perdi o gosto de ler, de escrever, de ouvir música… Só queria ficar deitada ou jogando RPG. As poucas vezes que visitei meu diário foi para tentar um projeto de reconquista que recebeu os seguintes nomes: save yourself, 30s regenaration, treat yourself

Combinei nessa mesma passagem de diário em dedicar uma semana para me reconectar comigo mesma e com as coisas que gosto. Última chamada para evitar a dita queda ao fundo do poço. Comecei bem o primeiro dia, cuja meta foi me reconectar com a escrita. Mas, no fim, falhei. Não segui em frente.

Não consegui escrever uma frase completa e nem reler o que tinha escrito no passado. Minha autodúvida estava no teto, afirmando que nada era o bastante. Sempre tive conflitos com minha escrita desde muito tempo e todos os perrengues se iniciam quando eu me nego a escrever porque bloqueia todo o resto. Parece que uma coisa puxa a outra. É só eu parar de escrever que tudo para, real e verídico. Eu estava muito pra baixo e evitar escrever foi como passar a chave na porta. O que veio a partir daí? Vivi fingindo que estava apenas procrastinando – sendo que não.

Mas o Sol continuou a nascer mesmo com a minha dor e o cinza dos dias mais frios seguiu firme se entremeando entre as nuvens. Nada ao meu redor parou. Só parou quando eu finalmente cedi ao fundo do poço sem saber exatamente o que seria de mim no processo. E meu fundo do poço não foi um famoso pé na jaca. Não. Foi uma treta homérica com a minha mãe, no dia 31 de dezembro de 2016, em que disse coisas horríveis, mas também disse umas verdades.

Mas as coisas horríveis ficaram e o dia seguinte é um completo blur. Não só esse dia, como vários outros de novembro e meu dezembro quase por completo.

Inclusive, não lembro de ter vivido os dias anteriores. Eu simplesmente deixei de viver, no fim das contas. Praticamente, deixei de existir. Não testemunhei o nascer do Sol em meus dias ruins. Nem os sorrisos. Não curti séries, músicas, livros. Eu brigava para não entrar em contato com essas coisas para não contaminá-las com meu dito fracasso.

Meu fundo do poço foi dizer coisas que jamais pensei que diria e o preço serviu de wake up call para que eu corresse um pouco atrás do save yourself, 30s regenaration, treat yourself em prática. Tudo começou com um e-mail pra geral. E estou talhando um projeto chamado She is Trying to Recover – e seria no Tumblr.

Passado tudo isso, a meta é entrar em contato com as coisas que perdi, com as pessoas que deixei de falar… É o processo de um ano de remendos. No segundo semestre de 2016, eu perdi o foco, o eixo. Estava como um maldito avião sem uma hélice, prontinha para cair. Agora, a única coisa que penso é reconquista. Perceber que o Sol ainda nascia através da minha dor, que o Sol ainda encontra seu jeito em testemunhar a chuva, se tornou real depois de passar por todos esses meses como se estivesse em uma caixa à prova de som e de sentimento.

As coisas mudaram quando vi que me precisava de volta. Mesmo na escuridão, sei o quanto sou boa em vários aspectos. Sei que algumas coisas que faço ainda valem a pena. E que todo o ciclo que moldei a muito custo nos últimos dois anos não deveria ser jogado fora. Seria injusto comigo. Seria injusto até com quem confiou em mim.

Esse texto vem para assentar o ritmo do Bela e as Feras ao longo desse ano. 2016 não foi bom para várias pessoas e regenerar se faz preciso no momento. Mais do que nunca. Eu realmente acredito que arte ajuda as pessoas e minha arte é escrever. Escrever esse texto é de uma reconquista sem tamanho. E, sério, estou empolgada com a jornada nada programada.

A Bela e as Feras faz parte desse ciclo de dois anos de reconquista porque comecei ele às escondidas temendo que não fosse dar conta. É ótimo estar de volta nesse lugar que partiu de uma necessidade particular e que quero que continue a ser suporte a quem precisar.

Chegou a hora de regenerar. Afinal, o Sol ainda nasce mesmo com a dor.

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