04 ago 15
I AM THAT GIRL: Capítulo 5

Estou bege por ter rolado o 5º encontro do I AM THAT GIRL. Sem drama pré-evento! Estava tão tranquila que acordei no domingo, o despertador berrando, e capotei de novo (mas foi sem querer).

Mesmo desabrigadas de novo – para dar um up na situação – conseguimos debater o que interessava (com vários desvios legais que até trouxeram Hannibal para a mesa): personagem feminina forte – verdade ou mito?

Há mesmo essa de personagem feminina forte? O que faz uma personagem feminina forte? É correto usar essa definição já que personagem masculino forte é só personagem masculino?

Como uma pessoa que faz muitas resenhas, usei – e ainda uso – a definição personagem feminina forte tendo em vista, obviamente, o que considero traços únicos que a tornam stronger than yesterday, como diria Britney Spears. Levei a Katniss para o cerne da conversa e não consegui falar tudo o que queria. Então, aqui vai o chute.

Há muito mimimi desnecessário sobre o fato da Katniss ser forte. Já li que ela é masculina. Já li que ela não é forte coisa nenhuma por sempre querer salvar o Peeta. Primeiro: a personagem não tem traços masculinos. Para ser forte não é preciso ter (e nem deve) características de homem. Ela é uma adolescente que acabou treinada para matar. A estrutura corporal dela na narrativa não remete, por exemplo, à Angelina Jolie em Tomb Raider.

Sobre o Peeta: não vejo como sinal de fraqueza. Ele é um aliado. Ele a faz mais forte. A crítica é porque ela chora e surta, mas, meus caros, vocês já contaram os traumas dela de Em Chamas até A Esperança? Qualquer adolescente sob pressão, e ruminando o passado, não agiria bem ao ver qualquer pessoa que ama sendo maltratada por um tirano como o Snow. E ela termina a saga traumatizada para sempre.

Às vezes, o que enche o saco é essa da mulher não poder salvar o homem. Não odeio homem e acho válido qualquer personagem feminina partir a favor dele no esquema protagonista e aliado. Em Jogos Vorazes, Peeta e Gale são parceiros de luta da Katniss. Como não salvá-los?

Peeta é o aliado do protagonismo da Katniss. Ele é a sanidade dela, junto com a irmã e Gale. Três pessoas que não a fazem desistir. Ela não foi escrita para ser autossuficiente. Ela não foi escrita para ser uma máquina. Everdeen representa qualquer pessoa humanamente sensata que jamais deixaria os entes queridos à mercê da guerra. Ninguém em sã consciência abandonaria o marido, a irmã, a mãe no meio do caos. Ao menos, os seres humanos sensatos.

Beijo, haters!

 

E é isso que faz uma personagem feminina forte para mim: sua humanidade. Ela pode ter uma bazuca, mas ela precisa ser palpável, com uma storyline sólida que sustente sua caracterização de maneira que ela amadureça e não regrida.

Gosto do combo vulnerabilidade em uma personagem, desde que seja convincente e condizente. Além disso, uma personagem boa tem que ter personalidade. Que seja fácil destacá-la dos já estereotipados modelos que existem aos baldes na indústria do entretenimento – a mulher é badass, mas mostra o corpo demais porque ela pensa que suas curvas a levarão longe e não seu poder; a chefe deusa que só é deusa porque sua vida amorosa flopou; a mocinha que consegue ser mocinha sozinha até encontrar o crush, perdendo o brilho e fazendo tudo pelo cara.

Não sou contra romance. Como sempre digo nas resenhas de TVD, romance é válido, desde que não anule a independência da mulher. A liberdade de escolha dela. A sua personalidade.

A personagem pode ter uma caracterização, digamos, inédita, mas, para mim, se não há pontos vulneráveis, personalidade e independência, ela não me convence. Às vezes, o que me mata é que a heroína está ali, de boa, comandando a trama, até a vida dela ser minimizada e resumida a um romance. Twilight está aí para isso.

Tudo bem que Bella não deve nem ser chamada de heroína, nem pela caracterização, mas pela falta de senso da Meyer ao criar uma bolha de fantasia tão incabível quanto as visões da Alice. O conto em Forks termina em vários nada.

Bella não teve para onde crescer por ter sido limitada ao Edward. Bella não mostrou seu potencial porque a trama não permitiu que isso acontecesse. Uma guerra sem morte? Sinceramente…

Twilight e 50 Tons de Cinza se resumem assim: o protagonista é o cara. A mulher só está ali para ser a sombra. E isso não é saudável. Nem elenca características de uma personagem forte. Afinal, Bella e Anastasia são duas mulheres passivas que agem conforme os movimentos do crush.

Voltando no tempo, a primeira personagem feminina que me cativou foi a Éowyn de O Senhor dos Anéis. Um amor muito semelhante que compartilho com a Brienne de Game of Thrones. Ambas tinham um título, poderiam seguir as regras da época, mas ambas tinham o desejo comum de não serem tratadas como damas e batalharam para estar em campo, com armadura e espada.

Quando Éowyn tira o capacete e fala que não é um homem pensei na hora: Meu Deus, quero ser essa mulher! Não porque ela é capaz de matar, mas por ela ter mostrado que acreditou nas suas habilidades para ser uma guerreira. Brienne e ela deixaram de mão o tradicionalismo e foram pelo caminho oposto que as amadureceu e que realçou a personalidade e fomentou a independência de cada uma.

 

Podiam ter engatado a storyline de caçadora? Podiam. Mas não teria Damon, né?

 

Óbvio que farei uma menção à Elena Gilbert. Ela era maravilhosa. Daí, a 4ª temporada de TVD aconteceu e a coloco facilmente no posto de medalha de bronze junto com a Bella e a Anastasia. A trajetória dessa personagem foi destruída por causa do Damon. Levando em conta que neste respectivo ano ela se tornou vampira, no mínimo era de se esperar um salto que a faria assumir o jogo e ter os Salvatore como seus aliados – já que ambos a salvam e isso a deixava meio infeliz.

Mas não. Elena Gilbert se tornou não só passiva, mas um objeto sexual. Ela foi transformada em vampira não para ser mais forte, mas para beneficiar um homem que sempre deixou claro que só a amaria daquele jeito, com presas e tudo mais. WTF?

O ponto crucial que poderia ter rendido um up na caracterização da Elena foi quando Jeremy – o irmão – morreu. Seguiram pelo caminho simples: a desligaram.

Uma heroína que não lida com a problemática? Perdeu o juízo, Stefs?

Katniss ficou boa parte do tempo dopada, mas houve um momento que ela simplesmente parou de fazer corpo mole e foi lutar. Elena poderia se reerguer com a perda do irmão, se desligar foi essencial na medida do possível para mostrar outra versão da personagem, mas, quando a brincadeira acabou, ela regrediu, e continuou a regredir, pois só via Damon.

Elena, Bella e Anastasia são necessárias por pontuarem o que não faz uma personagem feminina forte. Da mesma forma que Elena, que teve a chance de sofrer e de voltar mais forte e melhor quando perdeu Jeremy, o mesmo vale para o momento que Edward deixa a Bella. Ela poderia ter lidado com isso de várias formas, mas ela resolveu pular do penhasco. Isso não é mensagem que se transmite para jovens leitores – se seu coração for partido, se mate! WTF? Ou, pior, use drogas sobrenaturais para ver o namorado morto (Elena Gilbert). WTF?

O que me magoa mais que isso é saber que são mulheres que escrevem mulheres assim. Parem!

Mulher não é perfeita. Nem robótica. Ela sente todas as mudanças nos arredores, de um jeito mais próximo possível da realidade, independente do gênero. Todas as falhas, o sentir de cada perda ou fracasso, fazem parte da jornada e a elevam como personagem. Tudo isso para fazê-la ir para frente e não retroceder. Ela faz escolhas por si mesma e lida com as consequências.

Penso que não precisa ser necessariamente sozinha, isso depende muito do objetivo da história. Não vejo problema de ter um homem ao lado dela, desde que seja aliado.

Personagens femininas fortes têm o grande poder de inspirar de forma saudável. Faz quem as acompanha querer ser uma pessoa melhor por meio dos valores que se dissolvem na narrativa. Queremos que elas contornem as consequências e tenham uma absolvição no final da história. Isso, no mais heroico possível, não precisando necessariamente ser uma super-heroína como a Mulher-Maravilha. Elas tomam a ação e vão atrás do que querem, independente dos laços com outras pessoas.

Acredito que personagem feminina forte é aquela que o leitor ou telespectador não desiste de acompanhar ou de torcer. Para mim, isso resume muita coisa.

Como disse lá em cima, personagens femininas fortes são palpáveis. Éowyn e Brienne podem estar inseridas em uma época diferente, mas ambas sinalizam que uma mulher pode sim pertencer a um universo dito como apenas masculino. Que mulheres podem escolher o que bem entenderem mesmo em uma época que afirmava que elas deveriam ser de outro jeito. Elas são guerreiras não por terem uma espada na bainha, mas por marcharem pelo que acreditam.

O interessante na Brienne é que tudo o que ela se tornou foi por traumas decorrentes da sua aparência. As pessoas zombavam dela por ser robusta. Não havia homem que quisesse casar com ela. A personagem tornou o ruim em algo bom, e acho um viés como esse sensacional. Porque ela cresce, lida e amadurece.

 

Aff, melhor personagem.

 

Citando GoT a série (acho que será mais fácil visualizar), Brienne (gif acima) fez o que pôde para salvar a traseira do Jaime. Isso não a faz fraca. Mas porque o povo enche o saco? Porque ela começou a alimentar um feeling por ele, bem de leve. O que os trolls não veem é que ela conseguiu o reconhecimento do cara, sem precisar mostrar os peitos. Mais tarde, ele foi lá e deu a espada que usava para ela em sinal de respeito.

Ah! Mas mulher não precisa que um homem dê a ela 5 estrelas.

Nesse quesito, um homem ser gentil com uma mulher é mais impactante. No caso de Brienne, o que o Lannister fez foi reconhecer o valor dela. De mulher guerreira. Não de mulher que ele adoraria fazer sexo. Quantos homens tratam com respeito outra mulher sem segundas intenções?

Homens assim também são necessários. E eu os acho muito mais fortes que o herói Whey Protein.

Elizabeth (gif ao lado) é outra personagem que amo de paixão. Ela se casou com a Inglaterra, vejam bem. Ela foi julgada por ser filha de Anne Boleyn e quase foi morta por ser protestante. Homens queriam seu posto e ela foi lá e fez a diferença. Foi para a estratégia e para o campo de batalha.

Toda as vezes que disseram que era incapaz disso ou daquilo, ela mostrava o contrário. Elizabeth foi xingada, humilhada, ficou presa por anos por ser quem era antes de assumir o trono. Isso a definiu? Não. Ela é apenas uma das rainhas mais prósperas da história da Inglaterra.

Ela não precisou casar para comandar. Mas contou com homens como seus aliados.

Minha personagem feminina forte é um recorte da vida real. Pode ser uma distopia, eu tenho que conseguir explorá-la tanto na caracterização quanto psicologicamente como se ela estivesse sentada ao meu lado. Não é apenas uma mulher fazendo o que bem entender, é sobre inseguranças, aflições e perdas que não a tornam uma megera – porque isso é bem comum… A mulher amarga porque foi traída. Virem o disco!

Uma personagem feminina forte lida com o antagonista que tende a ser masculino. Ela não se cala diante dele. Ela sabe que todas as opiniões são importantes mesmo não querendo ouvi-las. Daenerys, outro exemplo, que escuta qualquer pessoa com um conselho conveniente e não perde a pose tronada. Quantos homens ouvem uma mulher e a motiva, hum? Quase não existe!

Acho que vale frisar isso: personagem feminina forte tem o homem como aliado. Ele não afeta seu protagonismo em absolutamente nada. Isso não quer dizer que o romance é vetado, porque a mulher ou a adolescente precisa ser a estrela. Sim, pode haver amor, mas desde que isso também não afete o pré-julgamento dela. Amor equiparado, sabem? Que não ferra nenhum dos lados.

Aqueles casais bacanas que crescem juntos.

Esse é um tópico que fico preocupada, porque adolescentes consomem essas supostas heroínas fortes sendo que elas são passivas, facilmente manipuláveis. Sim, infelizmente há mulheres que se deixam levar. Por isso que, mesmo condenando, acho personagens assim importantes por serem um exemplo do que não é válido. Ok, você pode me falar que a Anastasia topou o contrato do Christian porque quis, eu sei, mas aonde está a autoestima? A evolução dela como mulher?

Vejam, Anastasia era vários nada e continuou em vários nada até o fim da trilogia. Do nada ao nada. Você só consegue apurar a história do Christian no livro. Se é uma coisa que E. L. James fez bem foi mimicar o estilo de escrita da Meyer (sei que é fanfic, mas disfarçava, cara!). Você acha que é sobre a garota, mas é sobre o cara que incita o imaginário – que para mim é um pesadelo!

Sim, elas são exemplos de algo ruim, de relacionamentos abusivos, mas o grande problema é que a mídia romantiza e suaviza esse tipo protagonista que não é aliada do homem, mas submissa a ele.

 

Me senti no direito de prestar uma homenagem.

 

Acho que falei demais, e é mais ou menos isso.

PS: não vejo problema em usar personagem feminina forte, principalmente porque escrevo resenhas e preciso de comparativos para respaldar o argumento.

Stefs Lima
Jornalista com especialização em Potterhead e mestrado em Fangirl. Como humana, lidera um Capítulo Local do I Am That Girl em São Paulo. Como heroína, caça showrunners para defender personagens femininas. Seus maiores vícios são café, caps lock e Twitter.
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