10 nov 15
I AM THAT GIRL: Capítulo 8

Acho que este é o post mais complicado sobre um encontro do I Am That Girl. Por essas e outras que demorei para escrevê-lo e publicá-lo. Mas, como sempre digo, antes tarde do que nunca.

O encontro de outubro veio com peso e gosto especiais por não ter sido realizado em São Paulo, mas em Americana. Viajar não era o desafio (na verdade, era sim, porque sou uma grande sabotadora de planos), mas o tema escolhido: sororidade. Um tema que foi muito fácil de determinar porque estaríamos em um espaço fechado e as chances de todas falar, nem que fosse por 5 segundos, eram mais altas que no Starbucks. Não haveria o receio dos arredores, o que rendeu para mim a oportunidade de aprofundar o assunto das mais variadas formas.

A inspiração do tema também veio de uma deficiência que tenho notado em vários grupos de mulheres (voltados ao feminismo ou não): a ausência de discussão sobre sororidade. Penso que não é apenas saber a definição e como se aplica, pois muitas coisas do que vi, mesmo nos supostos ambientes em que todas são vistas como iguais, foram motivadas pela superioridade feminina. E isso não é sororidade, pois você silencia e/ou até humilha a dona inicial do discurso.

Todas têm o senso de protagonismo, mas grande parte se esquece de outro posicionamento essencial: o de aliada. Por essas e outras que essa conversa é necessária, pois sororidade não é apenas irmandade ou chamar a outra de “mana”.

Voltando ao encontro, tinha em mente que o bate-papo de outubro tinha tudo para ser o mais enriquecedor da minha jornada até aqui. Sem contar que haveria meninas novas, o que seria uma nova chance de dizer do que se trata o IATG.

E o IATG é sororidade, um dos valores que se agarra a meta de eliminar a cultura mean girl.

 

Saí de SP acreditando no potencial da conversa. Embora tivesse em mente que aquele encontro seria crucial para a pessoa que tenho me tornado, meu prazer viria das histórias que escutaria. E todas foram/são formidáveis.

A proposta foi muito simples: um giro para resgatar aquela menina que sofreu ou fez maldades por/com outras meninas.

Daí, vieram as indagações: como elas se sentiram com isso? Como elas se viam diante das meninas que ou as deixavam nas sombras ou as confrontavam o tempo inteiro? Ou, no meu caso, como era agir sendo o pesadelo de qualquer garota?

Depois dessa reflexão, cada uma se definiu em uma palavra, considerando o que viveram antes e em quem se tornaram depois das intempéries da adolescência.

Não considero o que provoquei na adolescência um grande segredo, pois as pessoas que encontrei no percurso sabiam dessa história que contei no encontro. O tema do mês mostrou sua verdadeira faceta quando comecei a falar, mas não desisti. Tinha que ser honesta, especialmente por pertencer a um movimento que quer o meu (nosso) melhor. Cada vez que sigo com o IATG, deixo uma cicatriz realmente cicatrizar, e tem sido ótimo.

Contei o caso mais marcante da minha vida: o dia em que stalkeei uma garota até a porta da casa dela, jurando que a estapearia. O motivo? Nenhum sério, na verdade.

A Stefs daquela época, com seus 14 anos, assistia ao divórcio dos pais. Os desdobramentos a azedaram, o que a fez canalizar toda raiva e dor. Quando ela chegava na escola, o que queria era descontar e as pessoas geralmente escolhidas eram as meninas. Em seu ponto de vista, elas lhe olhavam torto ou eram ousadas demais em “invadir” o seu quadrado. Na mente dela, era preciso colocá-las em seu devido lugar, como Regina George, o bastante para caçar briga aonde não tinha.

E havia outro dilema: aquela adolescente não aceitava felicidade alheia. Ser a anja malvada foi uma profissão, pois todo mundo tinha que ser infeliz como ela.

A adolescência, precisamente dos 14 aos 16 anos, foi uma das fases mais tensas da minha vida porque em vez de falar o que me afligia, canalizei a raiva. Feito isso, buscava motivos para mostrar minha ira. O fato de me temerem me fazia feliz.

Foi o caso dessa menina, que nunca me fez nada, mas foi a escolhida.

Nesse dia que a segui, lembro de uma marcha atrás de mim. Não só de meninas, mas em grande parte de meninos. Quando finalmente me aproximei, dois garotos do ensino médio me apartaram e me disseram que não relaria um dedo nela. Depois, apareceu o pai que disse que me receberia na sua casa, que seria muito bem tratada, mas que não tocaria na filha dele.

Essas duas intromissões foram dois tapas nas minhas bochechas. Fiquei sem reação. Refiz o trajeto para casa remoendo uma vergonha tremenda. Inclusive, tentando entender os motivos de tê-la perseguido sendo que ela não tinha feito nada amoral contra mim. Simplesmente não havia motivo. Fui atrás de birra mesmo.

Tinha 14 anos e uma raiva de adulto. Tanta raiva que não respeitava as pessoas e nem a mim mesma. Foi o capítulo do ciclo destrutivo, que tinha tudo para me matar ou me tornar uma pessoa mais vivida. Foi um ano de péssimas escolhas, péssimas amizades e péssimos comportamentos. A fase que muitos pais chamam de rebeldia, mas a Stefs de agora chama de explosiva, impulsiva e incoerente. Não pensava no próximo, simplesmente atacava.

Até hoje não me lembro o motivo de perseguir aquela menina, talvez ciúmes, não sei, mas, de alguma forma, precisava ter feito aquilo. Como tantos outros momentos ruins que me aconteceram na adolescência, no que aconteceu depois e no que continua a acontecer. Fora desse ciclo maligno, cheguei a conclusão de que não seria essa pessoa se não tivesse vivido esse e vários outros momentos. Acredito que se não tivesse sido agressiva, folgada, barraqueira, se não tivesse canalizado toda a minha raiva e descontado injustamente por aí, não teria o despertar. Sem um choque, tenho certeza que não seria essa Stefs.

A quem pergunte: só relei em uma menina uma vez e foi no meio de uma partida de handball. Lembro-me do motivo, o recalque por ela ter me deixado de lado ao se tornar popular. Éramos amigas desde a infância, mas a 6ª série aconteceu.

Quando penso sobre isso, e várias outras coisas que vivi nessa fase, chego a mesma verdade: quando adolescentes, não temos controle de quem somos e nem dos acontecimentos. Primeiro: porque não sabemos quem somos. Segundo: porque não sabemos quem queremos ser e o que queremos. Estar no controle ou não, resulta na mesma coisa: dor. Nessa fase, todos se encontram no Jogos Vorazes de pertencer, de ser querido ou de ser invisível para não ser vítima de chacota.

Pelos olhos da minha irmã, e já com meus estudos colegiais concluídos, vi que essa fase é crucial para fomentar quem seremos. Deixamos a adolescência depois de uma série de escolhas e penso que esse é o momento que passa mais rápido na nossa vida, pois temos que ser imediatos com tudo e isso moldará nossa faceta adulta.

Mas o que isso tem a ver com a mulher do futuro?

Infelizmente, algumas meninas não abandonam os péssimos hábitos ou arrastam os traumas que sofreram no período escolar para a vida adulta. É na adolescência que criamos uma redoma que nos defende, principalmente de outras garotas.

Se saímos da adolescência com essa ideia de que nenhuma garota é bacana, tendo em vista o que provocamos ou o que nos afligiu, teremos dentro de nós que nenhuma vale a pena. Que nenhuma é confiável. Penso que essa insegurança rodeia todas as mulheres, porque não nos desconstruímos do pensamento que uma deve competir com a outra, especialmente pela atenção masculina, e que todas são uma ameaça. Assim, é preciso combatê-las antes que todos aqueles pesadelos juvenis se repitam.

Penso também que agimos conforme o ambiente que estamos. Adolescentes são coagidos o tempo todo, seja por agressividade ou por defesa, para humilhar ou para exaltar. Há meninas que acreditam que humilhando a outra conseguirão ser soberanas para sempre. Atitude aprimorada e levada para a vida adulta, porque aquelas piadinhas e afrontas da adolescência se tornam um esquema mais organizado de humilhação que acontece no trabalho, na faculdade ou no bar.

As meninas são as mais frágeis na adolescência. Sentem tudo com mais intensidade e têm seu valor questionado a todo instante. Jamais enxergaria isso se não tivesse dado vários mergulhos quase fatais que me fizeram muito mal, mas que me trouxeram de volta à superfície. Há certas pessoas que precisam de um choque para pensar no que faz/fala e foi isso o que aconteceu comigo quando o pai da menina entrou em cena.

Se não tivesse dado esses saltos, não teria me tornado uma pessoa melhor ou até mesmo digna de apoiar minha irmã que não foi a agressora como eu, mas a agredida.

O que aconteceu diante da porta daquela menina foi o estalido. Qualquer que fosse minha revolta, ninguém merecia passar por tal humilhação só porque me sentia infeliz. Ninguém merecia sentir aquele tipo de medo. Quando minha irmã passou pelo drama de ser coagida na escola, especialmente por causa da sua aparência, percebi o quanto isso é inaceitável. Incabível. Simplesmente porque não afeta a vida da agressora, mas de quem é agredido.E foi quando passei a ser intolerante com bullying e afins.

Claro que perceber tudo isso não foi uma questão de segundos. Cair em si foi apenas um passo. Toda aquela caça sem cabimento me rendeu uma amiga. Sim, ela mesma, e nos falamos até hoje, sempre que possível (e vocês podem chegar a essa conclusão aqui). Quando nos reencontramos, ela ainda teve a pachorra de dizer que eu era apenas nervosa.

Mal sabia ela que Stefs era um dementador em combustão (isso existe?). Ainda bem que não sou mais explosiva, porque era algo tão forte, mas tão forte, que ficava cega de ódio. Juro-que-era-um-perigo-ambulante.

Minha insatisfação em forma de irritação não sumiu de uma hora para a outra também. A mudança crucial na minha vida teen aconteceu quando saí dessa escola e fui obrigada a conhecer um mundo novo. Obrigada porque não escolhi essa resolução, o que, claro, aumentou a minha raiva por ser reflexo do divórcio dos meus pais. Teve o show da menina que não queria largar as amigas, que tudo era injusto, mas sem grana não havia argumento.

Mudei de trajeto: saí da escola que estudei parte da minha juventude, passei a pegar trem sozinha, fui obrigada a descobrir como me encaixar em um mundo novo e erguer as defesas contra o desconhecido. Fiz uma única amiga nessa jornada por motivos de Harry Potter e tudo que sofri a partir desse capítulo foi o rebote do que me fazia “a nervosa”.

Eu vivia em negação por causa do divórcio dos meus pais. Quando saí da neura, descobri que era insegura e que me sentia inferior. Não gostava da minha imagem no espelho e nem da minha vida. A fuga? Não foi perseguir meninas dessa vez, mas me cobrar em aparência e em conhecimento. Especialmente a aparência, pois não gostava dos quilos a mais e do cabelo cacheado. A cobrança foi tão influente quanto ser explosiva. Quando me dei conta, estava sendo conduzida por um transtorno alimentar e carreguei o problema até os 19 anos.

Todos esses capítulos da minha adolescência são as minhas cicatrizes e ainda as tenho porque preciso delas. Elas me lembram quem me tornei. Uma coleção de altos e baixos que me ajudou a ser mais forte a cada novo capítulo.

Depois disso, percebi que nunca tive sérios problemas com meninas, mas as evitava ao máximo. Porque foram elas que causaram as minhas dores mais intensas, como também fui responsável pela dor de algumas. Não queria me sentir menor que elas e nem correr o risco de maltratá-las. Uma vida na corda bamba motivada pela mulher que fez meu pai trair a minha mãe e o reflexo do quanto esse evento abalou 3 mulheres simultaneamente.

Após a escola, minhas amizades foram masculinas. Sempre me senti melhor entre eles. Não havia essa de se sentir ameaçada ou de imaginar que alguma garota me olhava torto. Ou de que alguma queria ocupar meu lugar. Tive poucas amigas no passado e o mesmo se repete no presente, mas não é uma questão de terror feminino. É porque não dou confiança pra qualquer pessoa.

Dizer tudo isso (e um pouco mais) em uma sala com 8 meninas não foi tarefa fácil. Na minha mente era muito, demais, porque foram situações de anos atrás. Na hora que comecei a falar, perdi o controle, porque o que tinha projetado na mente não se repetiu na realidade.

Resgatar uma versão de si mesma e compará-la a de agora foi a forma que encontrei para as meninas compreenderem que a falta de confiança entre mulheres vem, muitas vezes, do que aconteceu no passado. Do como uma foi tratada por outra, do como uma tratou outra e de como se via e se sentia entre várias. Entender isso é uma forma de perceber que sororidade é mais que um conceito, é uma libertação também.

A minha maior prova de fogo sobre conviver entre garotas vem do IATG, porque não tinha a menor ideia de como inspirá-las. No fundo, não sabia por quanto tempo tocaria essa responsabilidade, porque nunca fiz questão de ter meninas e mulheres na minha vida. Se tinha uma amiga, ótimo, pois não me esforçaria para ter mais. O mesmo vale para pertencer a um clube da Luluzinha, porque começava a sufocar, esperando os primeiros pitacos rumo a uma treta.

Estar rodeada de várias meninas, com as mais variadas visões, com os mais diferentes corações e com as mais sinuosas cicatrizes tem sido um dos maiores aprendizados da minha vida. No fundo, sabia que a experiência me mudaria e tenho sede de mais.

Esse encontro foi minha prova de fogo. Se passasse por ele, definiria de vez o meu propósito e me perdoaria sobre o que fiz e sobre o que foi feito contra mim e outras garotas. E estou livre agora. Porque o importante é reconhecer os erros, perdoar, e evoluir como ser humano.

Mostrei para algumas mulheres que parte da minha história é essa, que fiz aquilo, e que agora essa sou eu. É importantíssimo que meninas e mulheres se voltem para dentro e se confrontem. Só assim para a sororidade ter mais relevância prática. Para mim, de nada adianta chamar alguém de irmã se você não reconhece o mal que fez para outras garotas ou o quanto ser maltratada por elas lhe afetou. Depois, se indagar sobre o que fará dali em diante.

De novo, é importante saber a dor da outra. A história da outra. Toda menina e mulher impõe limites na sua vida e nunca paramos para pensar no que uma ou várias já passou. Se botar no lugar da outra e entender aonde dói é importantíssimo, pois sororidade também é ouvir e respeitar. Todas são aliadas e protagonizam suas lutas. Para que se voltar contra elas, sendo que você também pode abrir a roda e ouvir o que cada uma tem pra contar?

A ideia do encontro foi justamente essa: buscar o passado, sentir o peso nos ombros e tentar encontrar o melhor de si mesma depois desses anos. No fim, o que realmente importa é se desconstruir e se libertar para tratar melhor não só elas, mas a si mesma.

Pouco se fala do quanto precisamos tratar a mulher como gostaríamos de ser tratadas. Não é uma tarefa fácil, pois há todas aquelas lembranças do passado que nos tornaram fechadas para outras mulheres. É exercício diário desligar o senso crítico, ser gentil e pensar antes de agir. Enquanto não quebrarmos algumas partes do antes, não seremos muita coisa no depois.

É uma indagação: você sofreu, agora me diga – o que você fará com toda essa dor?

Embora algumas digam que abraçam o conceito de sororidade, ainda dá para captar resquícios de que uma precisa ser melhor que a outra. A superioridade feminina, o Jogos Vorazes de meninas e mulheres que por qualquer motivo lançam o shade na luta da outra.

Sororidade tem a ver com se colocar no lugar daquela mulher e perdoá-la. No mais urgente, tentar conscientizá-la de que o que faz a afeta (como ser machista). Comportamentos são propagados e absorvidos, e é por isso que ainda há competitividade, superioridade e chacota entre mulheres. É hora de quebrar o ciclo, ainda mais se na adolescência você foi quase como eu.

Sororidade também é compartilhar histórias, talvez, até as mais terríveis. Foi isso que aconteceu no último encontro do IATG e me sinto muito leve e muito mais segura de que posso continuar a quebrar os meus limites e mostrar por aí quem eu fui e quem me tornei. Os limites que essa comunidade têm quebrado dentro de mim são imensuráveis, pois nunca pensei que chegaria a um ponto da minha vida em que seria tão aberta, independente dos julgamentos.

E você deveria fazer isso também.

PS: Se você chegou aqui e boiou no tema, fiz um post no Nossa Causa sobre sororidade.

Stefs Lima
Jornalista com especialização em Potterhead e mestrado em Fangirl. Como humana, lidera um Capítulo Local do I Am That Girl em São Paulo. Como heroína, caça showrunners para defender personagens femininas. Seus maiores vícios são café, caps lock e Twitter.
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